domingo, 9 de outubro de 2011

Desesperados

Caminhava lentamente pelas calçadas enquanto tentava ridicularmente me proteger daquele sol e daquele calor insuportável, até chegar ao ponto de ônibus, olhava pra todas aquelas pessoas com olhares lastimáveis enquanto procurava esperançosamente um lugar para que eu pudesse me sentar. Vi então ao longe um pequeno espaço onde supostamente me caberia sentada. Sentei-me, enquanto ironicamente me desfrutava do sol e daquele vento quente em meu rosto. Logo,  me lembrei de que eu não havia passagem para embarcar no ônibus ao qual eu aguardava desesperadamente, olhei ao redor tentando enxergar algum vendedor por ali, mas não havia nenhum. Então olhei para o lado e havia um senhor olhando para o nada enquanto ouvia sua música através do seu fone de ouvido, eu não queria incomoda-lo, mas era preciso.
– O senhor tem uma passagem que possa me vender? – perguntei enquanto ele olhava a sua frente, parecendo não me ver.
Mas ele não me ouvia pois sua música estava muito alta. 
– O senhor tem uma passagem que possa me vender? – perguntei novamente. 
–Me desculpa, moça, não escutei. – disse ele de forma angustiada enquanto tirava os seus fones.
Então repeti mais uma vez: – O senhor tem uma passagem que possa me vender? 
– Não tenho. – dizia ele enquanto olhava para os lados como se tivesse procurando algo. 
– Ah, obrigada. 
Me virei para minha frente voltando a desfrutar daquele vento em meu rosto. Percebi então que logo aquele senhor saiu e caminhava desesperadamente naquele sol, caminhava de um lado para o outro, minutos depois ele voltava perguntando algo para aquelas pessoas. 
Minutos depois aquele senhor de voltava a minha frente com um sorriso dizendo:
– Moça, não achei o vendedor, mas encontrei uma moça ali que pode te vender, me acompanhe. – disse ele enquanto caminhava em direção da outra moça.
Me levantei vagarosamente, o segui até a bendita moça, percebia todos os olhares desesperados se voltando para mim, ninguém entendia aquela situação, como assim um senhor poderia estar ajudando aquela vulgo patricinha. Comprei minha passagem, agradeci gentilmente aquele senhor enquanto ele me retribuia com aquele sorriso em seu rosto. 
Voltava então para meu suposto lugar a esperar meu ônibus percebendo todos aqueles olhares cansados, desesperados e que mal conseguem te encarar, com medo de um sorriso e ter que "obrigatoriamente" lhe dar um reflexo. 
Renata Cruz

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