sábado, 15 de outubro de 2011

Benevolência


    "...Quando eu te vejo e me desvio cauto 
    Da luz de fogo que te cerca, ó bela, 
    Contigo dizes, suspirando amores: 
    — "Meu Deus! que gelo, que frieza aquela!"
    Como te enganas! meu amor, é chama 
    Que se alimenta no voraz segredo, 
    E se te fujo é que te adoro louco... 
    És bela — eu moço; tens amor, eu — medo..."
    Amor e medo,  Cassimiro de Abreu
    Lá estavam eles, mais uma vez dentre suas paredes de vidro, dentre rápidos olhares que se desviavam ao perceber que o mesmo estava sendo correspondido, era assim todos os dias, incansavelmente. As palavras trocadas nunca se passavam de meros cumprimentos, mas havia ali uma vontade de saber como ia a vida do outro, como estava o trabalho, o coração, ah o coração, esse sim era de fundamental importância para a moça. 
    Ele adorava falar de sua glória, do modo inveterado como arrumava sua gravata, tomava o seu vinho e escutava suas músicas clássicas e diga-se de passagem, de muito bom gosto. Enquanto isso a moça ali afixava seus olhos atentamente nos movimentos precisos feitos pelos lábios dele, estava atenta a cada palavra dita, anotava-as precisamente em seu caderno, decorava todas a notas que saíra da boca do moço.  Estavam sendo longos os dias, desde que ele havia aparecido. Mas aquela presença, aquele ego e aquele olhar silencioso nela predominaria por longas datas, ainda que isso não passasse de ligeiros e  silenciosos olhares.
    Renata Cruz

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